O cabelo crespo: Uma busca pelo empoderamento do cabelo natural da mulher negra.

Tim Okumura

Durante muito tempo o cabelo crespo/afro vem sendo hostilizado e marginalizado pela sociedade. Ele ainda é colocado por muitos como símbolo de pobreza, descuido, rebeldia, e muitos outros adjetivos ruins. Quando uma criança negra nasce e possui cabelos crespos a mãe desça menina logo se arma contra os fios naturais da criança( deixa-os presos sempre), com o passar dos anos essa criança provavelmente irá alisar ou relaxar os fios, depois de escutar muitos apelidos sobre seus cabelos  na escola(bombril, pinxaim, cabelo duro…), essa química que a menina negra usa nos fios crespos um dia vai dar errado, uma quebra, uma queimadura ou ela vai ter alopecia capilar por causa do uso da escova para tentar deixar os cabelos com uma aparência de um “liso” mais aceitável.

Sim eu fui uma desças meninas negras que usavam químicas de alisamento no cabelo para me sentir mais aceita pela sociedade e até mais confortável comigo mesma. O que me fez mudar de dois anos e meio até este atual dia? O empoderamento das características naturais da mulher negra. Essa frase retrata muito bem o meu sentimento quando vejo uma menina negra na rua com o seu cabelo crespo natural, é lindo de se ver, ou até mesmo quando alguma crespa me aborda por aí pedindo dicas de produtos de tratamento e começamos a papear sobre nossa história capilar. Empoderar é basicamente da poder, dignidade e aquisição da emancipação individual, no caso da mulher negra e suas características físicas naturais. Cheguei a essa retomada de consciência através do Coletivo Meninas Black Power, que após ler seus textos me coloquei a questionar sobre como eu estava usando o meu cabelo e porque eu nunca tinha sequer pensado em deixar meus cabelos totalmente naturais sem nenhuma química.

Depois de vários textos sobre o tema, de buscar referências de cuidados no youtube, blogs e facebook, tomei uma decisão acertada e muito feliz: cortar o cabelo joãozinho e deixar meu cabelo crespo crescer pra ver realmente como ele era. Para minha surpresa todo o processo foi muito orgânico, busquei entender os meus motivos e minha história, decidi o dia do grande corte e foi, tava eu lá uma jovem que buscava por longos cabelos alisados agora com um corte curtíssimo, e com o cabelo crespo, eu estava extasiada pela sua forma, e pela descoberta de uma identidade visual que combinava totalmente com a minha personalidade! Minha volta aos cabelos crespos foi um ato político, e isso me fez ver o quanto o movimento de empoderamento das características da mulher negra se faz importante para aquelas que sequer teve a chance de não serem julgadas por serem negras. Toda essa busca ainda vem acompanhada pela luta de se fazer presente em ambientes cujo o cabelo crespo natural é visto como “inapropriado” ( profissões como advogadas, médicas, grandes administradoras entre outras). Uma grande preocupação das mulheres que buscam assumir os cabelos crespos é se ele vai influenciar na hora de procurar um emprego e o empoderamento serve exatamente para isso, para que em situações de pressão a mulher negra de cabelo crespo se sintam confortável com sua característica, para ficar claro que ela pode sim ocupar um status de reconhecimento sendo negra, com cabelo crespo.

Desconstruir o esteriótipo do cabelo crespo como um cabelo ruim vem sendo uma tarefa difícil, porque ainda há muita insegurança e falta de informação, não é um processo fácil porque envolve auto aceitação, é algo que só o individuo decide, e as mídias tem grande influência em todo esse processo, delimitando a mulher negra como a empregada, a pobre. O processo de se sentir inspirada por alguém vem do se ver em alguém, mas como essas mulheres vão se espelhar em alguém se elas não se vêem retratadas nessas mídias?! E é aí que entra a internet:movimentos pelo cabelos naturais, pelo empoderamento da beleza da mulher negra através grupos no facebook, blogs sobre cabelos crespos nacionais e internacionais, vlogueiras nacionais e internacionais vem desempenhando esse papel de difundir o pensamento de auto aceitação.

Esse processo de empoderar é pelo direito de não ser julgada e depreciada por ter cabelos crespos é quebrar muralhas impostas a séculos para as mulheres negras não se sentirem confortáveis com aquilo que elas são, com suas características naturais.

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